Hoje, enquanto meditava e conversava com Deus, algo veio ao meu coração. E eu comecei a pensar em Jó.
Jó era um homem íntegro, reto, temente a Deus e que se desviava do mal. Se olharmos para os primeiros versículos do livro, parece não haver absolutamente nada de errado. Sua família era unida, seus filhos se reuniam, faziam banquetes e compartilhavam momentos juntos. E Jó, preocupado com eles, levantava-se de madrugada e oferecia holocaustos segundo o número de seus filhos, pois pensava: “Talvez os meus filhos tenham pecado e blasfemado contra Deus em seu coração”.
Observe uma palavra: talvez.
Jó não disse que seus filhos haviam pecado. Ele não sabia. Ele não via o que acontecia no coração deles. Mas, diante da possibilidade, fazia aquilo continuamente.
Não estou dizendo que Jó estava errado, nem que sua intenção era ruim. Pelo contrário. A atitude dele demonstra cuidado e responsabilidade. Mas comecei a pensar sobre padrões. Sobre aquilo que fazemos repetidamente porque aprendemos que é assim que deve ser feito. Sobre aquilo que, muitas vezes, continuamos fazendo não necessariamente por convicção, mas por medo.
Lembrei-me de uma situação que vivi no último domingo. Fui pela primeira vez a uma igreja do meu bairro com minha filha. Ela teve aquela sensação de já ter estado ali, embora nunca tivesse ido. Expliquei a ela que talvez fosse por causa dos padrões que encontramos em muitas igrejas: paredes escuras, telão, luzes, determinados formatos de culto. Quando vemos aquilo repetidamente, nosso cérebro reconhece o padrão e temos a sensação de que já estivemos naquele lugar.
E comecei a pensar: será que isso também acontece na nossa vida espiritual?
Não estou dizendo que regras sejam ruins. Existem regras importantes, princípios importantes, ensinamentos importantes. O problema começa quando aquilo que deveria nos conduzir a Deus se transforma em um padrão que nos aprisiona.
Lembrei-me do filme Dormindo com o Inimigo. A personagem vivia com um homem extremamente perfeccionista e precisava manter tudo exatamente no padrão que ele determinava, porque tinha medo de ser maltratada. Depois de fugir, já em uma nova casa e longe dele, ela continuava organizando tudo da mesma maneira. O homem não estava mais ali, mas o padrão permanecia dentro dela.
Até que percebeu que não precisava mais viver daquela forma.
Quantas vezes fazemos a mesma coisa?
Podemos até sair de determinados ambientes, mas continuamos carregando dentro de nós os padrões que aprendemos. Padrões de igreja, de doutrina, de comportamento, de oração e até de como devemos nos aproximar de Deus.
Às vezes, criamos burocracias diante de Deus que Ele mesmo nunca criou.
E isso me fez pensar novamente em Jó.
Ele oferecia sacrifícios continuamente. Com certeza, ele havia ouvido e aprendido sobre aquilo com alguém, porque ninguém simplesmente inventa do nada uma prática que fazia parte de toda uma realidade religiosa presente nas Escrituras. Mas o ponto não é descobrir exatamente quem ensinou Jó. O ponto é perceber que ele recebeu um padrão, incorporou aquele padrão e o praticava continuamente.
E então chegamos ao final do livro.
Depois de tudo o que aconteceu, Jó diz:
“Eu te conhecia só de ouvir falar, mas agora os meus olhos te veem.”
Isso é forte.
Jó não termina dizendo simplesmente: “Agora entendi por que sofri”.
Ele diz: “Agora eu te conheço.”
E comecei a pensar: quantas vezes nós conhecemos a Deus apenas por aquilo que ouvimos? Conhecemos aquilo que nos ensinaram sobre Ele, aquilo que aprendemos na igreja, aquilo que nossos pais, avós, pastores e líderes nos ensinaram. E tudo isso pode ter valor. Mas será que conhecemos o próprio Deus?
Tenho pensado nisso até mesmo na maneira como oro.
Durante anos, podemos aprender que precisamos orar de determinada maneira, começar com determinadas palavras, fazer determinadas orações todos os dias. E, sem perceber, algo que começou com sinceridade pode se transformar em um padrão movido pelo medo.
“Se eu não orar exatamente assim, será que Deus vai guardar meus filhos?”
“E se alguma coisa acontecer porque eu não fiz aquela oração?”
“E se a culpa for minha?”
Isso é muito sério.
Porque então já não estou apenas orando por amor. Estou tentando controlar, por meio da minha prática religiosa, aquilo que somente Deus pode controlar.
No domingo passado, depois de ouvir algumas coisas na igreja que me deixaram desconfortável, decidi ir embora antes da pregação. Não estou aqui para julgar o pastor, os homens, a igreja ou dizer que Deus não age naquele movimento. Deus conhece o coração de cada pessoa, e eu não estou ali para julgar aquilo que não conheço.
Mas algumas coisas me fizeram questionar.
Quando ouvi sobre o valor para participar de uma experiência na montanha, pensei: por que precisamos pagar para ter um encontro com Deus? Não estou dizendo que não existam custos com alimentação, equipamentos ou organização. A questão que me veio foi outra: será que precisamos de uma experiência específica, em um lugar específico, pagando determinado valor, para nos encontrarmos com Deus?
Não podemos buscá-lo em nossa casa?
No nosso quarto?
Em uma montanha perto de nós?
Na Palavra?
Na oração?
Não podemos começar hoje a buscar ser melhores pais, melhores mães, melhores esposos, melhores esposas, melhores filhos, melhores pessoas?
Por que esperar um seminário ou uma experiência para começar aquilo que já deveríamos desejar viver?
Eu não sou uma mãe perfeita, uma esposa perfeita, uma mulher perfeita ou uma dona de casa perfeita. Mas posso acordar todos os dias e dizer: “Senhor, ajuda-me a ser alguém melhor”.
Não preciso esperar uma experiência para começar.
E quando saí da igreja naquele domingo, aconteceu algo que mexeu profundamente comigo.
Eu pedi perdão a Deus por ter ido embora antes da pregação.
E minha filha, de apenas nove anos, olhou para mim e disse, em sua simplicidade: “Ah, não, mamãe. Para com isso. Você não fez nada de errado”.
Aquilo me fez pensar.
Por que eu senti imediatamente que precisava pedir perdão?
Por que sair de uma igreja antes da pregação automaticamente despertou em mim a sensação de que eu havia pecado?
Talvez minha filha tenha enxergado algo que eu ainda estou aprendendo a enxergar.
Talvez eu esteja carregando padrões que já não preciso carregar.
Isso não significa abandonar a igreja. Não significa abandonar líderes, pastores, doutrina, Bíblia, temor ou reverência. Não significa fazer tudo de qualquer maneira.
Significa aprender a buscar a Deus por mim mesma.
Significa conhecer as Escrituras, estudá-las, pensar sobre elas e permitir que o Espírito Santo renove a minha mente.
Porque Deus não quer apenas que eu repita aquilo que ouvi sobre Ele. Ele quer que eu o conheça.
Jesus também confrontou aqueles que conheciam a lei, mas haviam perdido o propósito dela. Eles colocavam cargas sobre as pessoas que nem eles mesmos conseguiam carregar. Conheciam as regras, mas não compreendiam o coração de Deus.
Jesus veio mostrar o verdadeiro propósito: amar a Deus de todo o coração, de toda a alma, de toda a força e de todo o entendimento, e amar o próximo como a nós mesmos.
Talvez Deus esteja quebrando alguns paradigmas dentro de nós.
Talvez estejamos tão acostumados com determinados padrões que, quando a luz começa a aparecer, não conseguimos enxergá-la.
Mas a Palavra nos chama à renovação da mente.
Não precisamos perder o temor do Senhor. Não precisamos perder a reverência. Não precisamos abandonar aquilo que é verdadeiro.
Precisamos apenas ter coragem para perguntar:
Por que eu faço isso?
Eu faço porque conheço a Deus ou porque foi assim que me ensinaram?
Eu faço por amor ou por medo?
Estou buscando a Deus ou apenas repetindo um padrão religioso?
E talvez essa seja uma das maiores libertações: descobrir que podemos nos aproximar de Deus sem precisar viver aprisionados pelo medo.
Jó disse:
“Antes eu te conhecia só de ouvir falar, mas agora os meus olhos te veem.”
Que essa também seja a nossa oração.
Que não precisemos esperar a perda para conhecer a Deus.
Que não precisemos esperar a dor.
Que não precisemos esperar o sofrimento.
Que possamos conhecê-lo hoje.
No dia da alegria.
Na mesa cheia.
Na família reunida.
Na celebração.
No silêncio do quarto.
Na oração espontânea.
Na vida cotidiana.
Porque Deus não é encontrado apenas na dor.
Ele também está presente na alegria.
E talvez a luz já esteja começando a sair.
Não percebeis?






